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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A VOZ DO SILÊNCIO

Pior do que a voz que cala,


é um silêncio que fala.

Simples, rápido! E quanta força!

Imediatamente me veio à cabeça situações

em que o silêncio me disse verdades terríveis,

pois você sabe, o silêncio não é dado a amenidades.

Um telefone mudo. Um e-mail que não chega.

Um encontro onde nenhum dos dois abre a boca.

Silêncios que falam sobre desinteresse,

esquecimento, recusas.

Quantas coisas são ditas na quietude,

depois de uma discussão.

O perdão não vem, nem um beijo,

nem uma gargalhada

para acabar com o clima de tensão.

Só ele permanece imutável,

o silêncio, a ante-sala do fim.

É mil vezes preferível uma voz que diga coisas

que a gente não quer ouvir,

pois ao menos as palavras que são ditas

indicam uma tentativa de entendimento.

Cordas vocais em funcionamento

articulam argumentos,

expõem suas queixas, jogam limpo.

Já o silêncio arquiteta planos

que não são compartilhados.

Quando nada é dito, nada fica combinado.

Quantas vezes, numa discussão histérica,

ouvimos um dos dois gritar:

"Diz alguma coisa, mas não fica

aí parado me olhando!"

É o silêncio de um, mandando más notícias

para o desespero do outro.

É claro que há muitas situações

em que o silêncio é bem-vindo.

Para um cara que trabalha

com uma britadeira na rua,

o silêncio é um bálsamo.

Para a professora de uma creche,

o silêncio é um presente.

Para os seguranças de um show de rock,

o silêncio é um sonho.

Mesmo no amor,

quando a relação é sólida e madura,

o silêncio a dois não incomoda,

pois é o silêncio da paz.

O único silêncio que perturba,

é aquele que fala.

E fala alto.

É quando ninguém bate à nossa porta,

não há emails na caixa de entrada

não há recados na secretária eletrônica

e mesmo assim, você entende a mensagem.

(Martha Medeiros)




terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Viver o sonho sonhado
e seus campos vastos do amor
Partilhar todos os dias os retalhos do existir
Doar-se toda e inteira para a casa da paixão
Sentir-se amada e amante entre o chão e o precipício.


Leva-me a vôos e precipícios
fantasias noites e olhares
No meu dia imaginário junto a ti.
 
Glória Azevedo

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O HAVER

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
Perdoai-os! porque ele não tem culpa de ter nascido...

Resta essa imobolidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa guagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta esse diágolo cotodiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada

Resta esse constante esforço para caminhar
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.

Vinicius de Moraes

segunda-feira, 22 de junho de 2009

LEVEZA

Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve

E a cascata aérea
de sua garganta,
mais leve.


E o que lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto,
mais leve.

E o desejo rápido
desse antigo instante,
mais leve.

E a fuga invisível
do amargo passante,
mais leve.


Cecília Meirelles